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O cientista da computação Fernando Boavida foi um dos elementos da equipa que, em 1991, ligou Portugal à Internet. 30 anos depois, o docente e investigador da Universidade de Coimbra descreve o trabalho realizado e o ambiente vivido por quem realizou este trabalho pioneiro. E reflete sobre as transformações que ocorreram, durante as três décadas seguintes: “A Internet mudou radicalmente a sociedade”. 

No próximo outono, assinalam-se 30 anos passados sobre a ligação de Portugal à Internet. Pode descrever-nos o papel da Unidade FCCN (então Fundação para o Desenvolvimento dos Meios Nacionais de Cálculo Científico) neste processo?

A Fundação para o Desenvolvimento dos Meios Nacionais de Cálculo Científico teve um papel determinante na ligação de Portugal à Internet, ao enquadrar uma proposta de projeto submetida ao Programa Ciência que veio a suportar os meios necessários para essa ligação. O projeto foi o resultado de uma iniciativa de docentes/investigadores universitários, informalmente liderados pelo Professor Doutor José Legatheaux Martins, que foi, desde o primeiro momento, a “alma” de todo o processo. O empenho da Fundação, representada pelo Professor Doutor Vasco Freitas, sempre foi total, tendo reconhecido de imediato a importância que a ligação à Internet teria na comunidade científica e académica nacional e o consequente potencial para o desenvolvimento e modernização do País.

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Enquanto elemento da equipa que executou o projeto de ligação de Portugal à Internet, o que nos pode contar sobre esse tempo e essa experiência?

Foram tempos de grande entusiasmo e de sincera colaboração entre as instituições universitárias, bem como entre estas e a FCCN. Os serviços comerciais de comunicação existentes à altura eram bastante limitados e caros e, por isso, a possibilidade de passar a dispor de formas de comunicação mais eficazes com a comunidade científica e académica internacional era algo por que todos ansiávamos. Esse entusiasmo estendia-se ao interior de cada instituição participante.

No caso da Universidade de Coimbra, o grupo de Redes de Comunicação, liderado por mim e pelo meu colega Edmundo Monteiro, estava diretamente envolvido no processo. De facto, inicialmente, o ponto de acesso de toda a Universidade de Coimbra à então designada Rede de Cálculo Científico Nacional era suportado por um único servidor do grupo de Redes de Comunicação, a máquina mercurio.uc.pt. Posteriormente, em fase de “produção” generalizada a toda a Universidade de Coimbra, esse acesso passou a ser assegurado pelo Centro de Informática da Universidade de Coimbra (CIUC), cujo responsável técnico era o Eng. Mário Bernardes.

Durante as três décadas seguintes, assistimos a uma evolução exponencial da Internet e tecnologias de base. Era algo que antecipavam como o caminho a tomar no início da década de 1990? Era possível prever o seu impacto na sociedade?

A informática, as redes e os computadores estão tão presentes em todos os aspetos das nossas vidas que quase já não nos apercebemos disso. A nossa realidade confirma a visão de Mark Weiser, o cientista de computação que, na já longínqua década de 1980, idealizou e definiu o conceito de computação ubíqua, segundo o qual as tecnologias estariam tão presentes nas nossas vidas que seriam quase invisíveis. Apesar dessa visão, mais centrada na computação do que na comunicação, o impacto da Internet na sociedade ultrapassou tudo o que era imaginável na altura. É essa, afinal, a parte mais entusiasmante do desenvolvimento científico e tecnológico, que é constituído por pequenos passos que, sem se esperar, podem levar-nos a descobrir “paisagens” totalmente inesperadas. 

A Internet mudou radicalmente a sociedade. Começou por mudar a comunidade científica, depois mudou drasticamente o negócio dos operadores de telecomunicações – que em poucos anos viram desaparecer modelos de negócio que existiam há largas dezenas de anos – e permitiu que, de repente, enormes volumes de informação passassem a estar à disposição da população em geral. Depois disso – e com base nisso – desenvolveu-se o comércio eletrónico, todo o tipo de serviços on-line, o teletrabalho, as redes sociais, as redes celulares, a comunicação entre todo o tipo de dispositivos, a interação entre mundo virtual e dispositivos físicos, os edifícios, cidades e transportes inteligentes. 

Hoje, muito pouco pode ser feito sem acesso à Internet e tudo funciona sobre a tecnologia IP, ao ponto de que também sobre a Internet se condicionam eleições, se travam guerras, se desenvolvem ataques e se cometem crimes. Nem Mark Weiser poderia imaginar tudo isto em 1990.

Sente que o mundo online se enquadra hoje, de forma global, nos objetivos e missão que preconizavam em 1991?

Ninguém pode querer condicionar a evolução tecnológica a objetivos ou missões estabelecidos há três décadas. Quando se divulga uma ideia ou se lança um desafio percebemos que contribuímos com um ponto de partida, mas a decisão do caminho a seguir está nas mãos de quem o constrói. Naturalmente, podemos e devemos influenciar a evolução na medida do possível e desejável, como qualquer outro interveniente.

As tecnologias da Internet e o ambiente altamente distribuído em que estamos imersos têm possibilitado, nos últimos tempos, o desenvolvimento de aplicações para monitorização de pessoas e de extração de conhecimento, com os mais variados fins. O mundo real é, cada vez mais, um mundo artificial. Caminhamos para uma sociedade que não queremos, demasiado artificial, na qual tudo é inteiramente previsível e controlado.

No fundo, não queremos que as casas em que vivemos nos controlem ou digam o que fazer, não queremos estar constantemente localizados – na escola, no trabalho, ou em lazer – não queremos que nos digam qual o caminho a seguir para ir de A para B porque, às vezes, é quando nos perdemos que nos encontramos, não queremos que um qualquer sistema inteligente nos meça constantemente os sinais vitais porque não é isso que nos dá a alegria de viver. Talvez a Inteligência Artificial e a chamada Internet das Coisas potenciem muitos benefícios, mas o que é certo é que nós, seres humanos, não queremos ser as Coisas da Internet.

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