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A Gestora de Ciência da Unidade FCCN, Cátia Laranjeira, detalha algumas das dificuldades colocadas às mulheres que trabalham no mundo da Ciência e Tecnologia, deixando algumas pistas sobre os caminhos a percorrer para a sua resolução.

A Unidade FCCN juntou-se à campanha da GÉANT Women in STEM, que procura divulgar o papel das mulheres na Ciência e Tecnologia. Como pensa que tem evoluído a notoriedade do trabalho das mulheres nesta área, ao longo dos últimos anos?

São cada vez mais as mulheres que se distinguem na Ciência e que são reconhecidas no espaço público pelo seu contributo. Portugal, em particular, tem percorrido um longo caminho neste domínio – as mulheres representam já 60% dos cientistas nos laboratórios do Estado e cerca de metade dos cientistas nas instituições de ensino superior. Ainda assim, menos de um terço dos professores catedráticos e investigadores no topo da carreira são mulheres.

#2 Existem dificuldades colocadas às mulheres que trabalham nestas áreas? E em específico na sua área de especialidade?
A Ciência, como qualquer outra atividade humana, não é imune aos preconceitos e vieses da sociedade no seio da qual é desenvolvida. Exemplo disso são casos como o de Tim Hunt – bioquímico laureado com um Nobel – que, em 2015, se demitiu da University College London, depois de ter afirmado publicamente ser a favor de “laboratórios unissexo” e ter “dificuldades em lidar com mulheres no seu laboratório”. Segundo Tim Hunt, “acontecem três coisas quando elas estão no laboratório… Tu apaixonas-te por elas, elas apaixonam-se por ti e, quando as criticas, elas choram”. A este tipo de pensamento, acresce ainda o difícil equilíbrio entre a vida familiar e uma carreira científica muitas vezes pautada pela incerteza e precariedade, como descrito no estudo O Trabalho Científico em Portugal: Precariedade e Burnout. Esta foi mais uma das fragilidades que a pandemia da Covid-19 veio expor e agravar. Portanto, sim, existem dificuldades que, de forma mais ostensiva ou mais subtil, mais transversal ou mais específica, continuam a contribuir para a desigualdade de género na Ciência.

#3 Que passos pensa poderiam ser dados para levar à eliminação dessas
dificuldades?

Eliminar essas dificuldades é eliminar a desigualdade de género, uma tarefa desafiante que levará certamente gerações até que se cumpra plenamente. As mudanças estruturais passam necessariamente pela educação – as crianças de hoje são os adultos de amanhã e, portanto, uma educação/socialização que promova uma sociedade mais igualitária será fundamental para, pouco a pouco, erradicar estereótipos enraizados. Assim como a desconstrução de representações estereotipadas nos media e a promoção da visibilidade do percurso de mulheres que se destacam, na sua área de atuação, nomeadamente na Ciência. Entretanto, a implementação de políticas publicas inclusivas, o alargamento da rede de infraestruturas de suporte à família, a licença parental partilhada, bem como outras medidas, poderão certamente ajudar.

#4 Qual o contributo que dias como o International Day of Women and Girls in Science podem oferecer para a resolução desses problemas?
Iniciativas como o International Day of Women and Girls in Science servem, sobretudo, para inspirar os mais jovens e para chamar a atenção de todos nós para o facto da Ciência e, em última análise, a Sociedade, só terem a ganhar com a diversidade e inclusão. A diversidade é positiva, não porque a mulher seja intrinsecamente melhor investigadora, mas porque as diferentes perspetivas e formas de olhar para os problemas que advêm de equipas diversas são fundamentais para dar resposta às questões complexas da Ciência contemporânea.

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